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O mercado de locação residencial no Brasil está passando por uma transformação profunda. Mudanças regulatórias, tributárias e urbanísticas, somadas à alteração do perfil dos imóveis lançados pelas incorporadoras, vêm redefinindo a forma como investidores avaliam oportunidades de renda imobiliária.

Nesse cenário, a decisão entre operar um imóvel por meio de plataformas de curta temporada, como Airbnb e Booking, ou optar pela locação tradicional de longa duração tornou-se mais complexa do que simplesmente comparar o valor de uma diária com o aluguel mensal.

A análise correta exige considerar custos, tributação, volatilidade, risco regulatório e até mesmo a flexibilidade de uso da unidade adquirida.

A primeira armadilha: comparar números que não possuem a mesma base

A locação tradicional conta com indicadores consolidados e metodologias amplamente reconhecidas. Segundo o Índice FipeZAP, a rentabilidade bruta média do aluguel residencial no Brasil atingiu 6,08% ao ano em abril de 2026. Em imóveis de um dormitório, esse percentual chegou a 6,76%, enquanto cidades como São Paulo e Rio de Janeiro registraram retornos de 6,37% e 6,17%, respectivamente.

É importante destacar que esse indicador representa apenas o rental yield, ou seja, a relação entre a renda de aluguel e o valor do imóvel. Ele não considera a valorização ou desvalorização do ativo ao longo do tempo e tampouco incorpora os efeitos da tributação.

Já na locação por curta temporada, não existe um indicador nacional equivalente que permita medir a rentabilidade líquida com o mesmo grau de confiabilidade. Grande parte das afirmações de que a modalidade rende “duas, três ou até quatro vezes mais” tem origem em materiais promocionais de empresas de gestão e plataformas, sem metodologia padronizada ou validação acadêmica robusta.

Os estudos existentes apontam resultados positivos, mas longe de formar um consenso. Pesquisas acadêmicas recentes identificaram taxas internas de retorno atrativas em alguns casos específicos, porém também demonstraram que modelos intermediários de locação, conhecidos como mid-stay, podem apresentar desempenho superior ao aluguel de curtíssima duração.

Quando a receita bruta esconde a realidade

O principal diferencial entre os dois modelos está na intensidade operacional.

Na locação tradicional, o proprietário normalmente entrega o imóvel vazio ou semimobiliado, celebra um contrato de longo prazo e passa a receber uma renda previsível. Já na curta temporada, a operação se aproxima de uma atividade de hospedagem.

O imóvel precisa estar totalmente mobiliado, equipado e constantemente preparado para novos hóspedes. Há custos recorrentes com enxoval, manutenção, limpeza, reposição de itens, atendimento, check-in e check-out.

Além disso, muitos investidores confundem duas despesas distintas: a taxa da plataforma e a taxa de gestão.

Plataformas como Airbnb cobram uma comissão relativamente pequena do anfitrião. Entretanto, quando o proprietário terceiriza a operação para uma administradora especializada, os custos aumentam significativamente. Empresas de gestão costumam cobrar entre 20% e 35% da receita bruta, sendo 20% o percentual mais comum no mercado.

Na locação convencional, por outro lado, a remuneração da imobiliária normalmente corresponde ao primeiro aluguel no momento da locação. Considerando um contrato médio de 30 meses, esse custo diluído representa aproximadamente 3,3% da receita total do período.

A diferença se torna ainda mais expressiva quando se observam as despesas operacionais.

Na locação tradicional, condomínio, IPTU, água, energia elétrica e gás geralmente são transferidos ao inquilino por contrato. Na curta temporada, todos esses custos permanecem sob responsabilidade do proprietário.

Em imóveis com condomínio elevado, esse fator sozinho pode reduzir significativamente a rentabilidade líquida da operação.

Previsibilidade versus volatilidade

Outro aspecto frequentemente negligenciado pelos investidores é a natureza da receita.

A locação tradicional gera um fluxo de caixa previsível. O aluguel possui valor fixo, reajuste contratual periódico e, em muitos casos, previsão de multa em caso de rescisão antecipada.

Na curta temporada, a receita depende de duas variáveis extremamente sensíveis: diária média e taxa de ocupação.

Ambas oscilam conforme a sazonalidade, eventos locais, desempenho do turismo, entrada de novos concorrentes e condições econômicas. Um mês pode apresentar excelente resultado, enquanto o seguinte pode registrar forte queda de faturamento.

Essa volatilidade faz parte do modelo de negócio e deve ser considerada como um componente de risco na análise de retorno.

O risco silencioso da superoferta

Um dos riscos menos discutidos atualmente vem do próprio mercado de lançamentos imobiliários.

Nos últimos anos, incorporadoras passaram a concentrar boa parte de seus projetos em unidades compactas, especialmente estúdios. Em algumas cidades, esses imóveis já representam a maioria dos lançamentos verticais.

Esse movimento foi impulsionado, em grande medida, pela demanda de investidores interessados justamente na exploração da curta temporada.

O problema surge quando um número excessivo de unidades semelhantes passa a disputar o mesmo público.

Em mercados com forte concentração de estúdios voltados ao aluguel por plataformas, o aumento da oferta tende a pressionar para baixo tanto o valor das diárias quanto as taxas de ocupação.

O investidor que adquire uma unidade hoje precisa olhar não apenas para a concorrência existente, mas também para o volume de imóveis que ainda será entregue nos próximos anos.

Uma rentabilidade projetada com base no cenário atual pode não se sustentar quando novos empreendimentos entrarem em operação.

O tamanho da unidade pode ser um seguro

Outro fator estratégico é a flexibilidade de uso do imóvel.

Unidades extremamente compactas, com áreas próximas de 18 m², costumam apresentar baixa atratividade para contratos residenciais de longa duração. Na prática, tornam-se dependentes da curta temporada.

Já apartamentos na faixa de 30 m² ou mais costumam permitir uma migração relativamente simples entre os dois modelos de locação.

Essa flexibilidade possui valor econômico.

Caso ocorram mudanças regulatórias, aumento da tributação ou queda na rentabilidade das plataformas, o proprietário pode migrar para a locação convencional sem grandes dificuldades.

Em outras palavras, alguns metros quadrados adicionais podem funcionar como uma espécie de proteção contra mudanças adversas de mercado.

Tributação: um cenário menos favorável para a curta temporada

A reforma tributária trouxe uma mudança relevante para os operadores de curta temporada.

A legislação passou a equiparar locações inferiores a 90 dias às atividades de hospedagem para fins de incidência dos novos tributos sobre consumo.

Como consequência, benefícios previstos para a locação residencial tradicional não se aplicam ao aluguel de curta duração.

Dependendo da estrutura operacional adotada e do volume de receitas, a carga tributária pode se tornar significativamente mais elevada, reduzindo parte da vantagem financeira normalmente atribuída ao modelo.

O impacto da decisão do STJ

A insegurança regulatória também ganhou protagonismo.

Em maio de 2026, o Superior Tribunal de Justiça definiu que a exploração de imóveis residenciais em plataformas de curta temporada depende de autorização prevista na convenção condominial ou aprovada pelos condôminos.

A mudança alterou a lógica que prevalecia até então.

Antes, a proibição precisava estar expressamente prevista. Agora, na prática, a autorização é que deve estar claramente estabelecida.

Para o investidor, isso transforma a análise da convenção de condomínio em uma etapa obrigatória da diligência imobiliária.

Em imóveis usados, é necessário verificar se a atividade está permitida. Nos lançamentos, é fundamental confirmar se a convenção foi estruturada para admitir esse tipo de exploração.

O que realmente deve ser comparado

A discussão entre curta temporada e longa duração não pode ser reduzida a uma simples comparação entre receita mensal e faturamento de diárias.

O aluguel tradicional apresenta indicadores consolidados, fluxo de caixa previsível e menor exposição a riscos regulatórios, tributários e operacionais.

A curta temporada pode gerar receitas superiores em determinados mercados e imóveis específicos, mas exige gestão mais intensa, suporta custos significativamente maiores e está sujeita a volatilidade, tributação diferenciada e risco crescente de superoferta.

Como ocorre em qualquer investimento, maior potencial de retorno normalmente vem acompanhado de maior risco.

Por isso, a pergunta correta não é qual modalidade gera a maior receita bruta, mas qual oferece a melhor relação entre retorno, custos, previsibilidade e risco para cada perfil de investidor.

Para corretores de imóveis e proprietários de imobiliárias, compreender essa equação deixou de ser um diferencial competitivo. Tornou-se uma competência indispensável para orientar investidores de forma responsável e ajudá-los a tomar decisões mais seguras e fundamentadas.

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